Cultura
Crítica: Harry Styles encara a maturidade e acerta em
disco fiel a si mesmo
Quarto álbum solo do astro, ‘Kiss all the time. Disco,
ocasionally’ encena com eletrônicas elegantes e pulsantes o diário de
descobertas e jogos amorosos de um jovem adulto
Por Silvio Essinger — Rio de Janeiro
06/03/2026 11h22
Atualizado há 4 horas
Aos 32 anos, já bem distante dos tempos de One Direction,
o cantor inglês Harry Styles não é mais nenhum garotinho. Ao mesmo tempo, ele é
um desses pop stars que se contam nos dedos de uma mão capazes de arrastar
multidões — de crianças, adolescentes, adultos — para os estádios. Diante do
desafio de um quarto álbum solo, Styles parece ter escolhido a mais arriscada
opção: ser fiel a si mesmo.
“Kiss all the time. Disco, ocasionally”, que chegou esta
sexta-feira ao streaming, cercado de expectativas, é a perfeita expressão de
quem tardia, mas serenamente, foi levado a reconhecer e enfrentar as
encruzilhadas que a idade pôs no caminho. E que, como o próprio sobrenome faz
supor, encarou a tarefa com um bocado de estilo.
O álbum abre exatamente com “Aperture”, o single-aperitivo
que ele lançou em janeiro. Um bem-vindo casamento de vulnerabilidades, música
pulsante das pistas de underground e elegantes referências do rock e da música
eletrônica, a faixa entrega o tom geral do disco (embora haja mais coisas nele)
e prepara o ouvinte para esse novo Harry Styles, que desfila pelas outras 11
canções do disco.
“American girls” (mais lenta e introspectiva, embora
igualmente tocada pelo espírito do pop alternativo) e “Ready, steady, go”
(eletropop oitentista com violão, na medida para o crooner dar o seu recado
sensual) vão aquecendo lentamente o disco, que entra definitivamente na pista
de dança em “Are you listening yet”, com seu groove sólido, letra com pegada de
rap (“se você insiste em participar de um movimento / certifique-se de que haja
dança”) e batuques ferozes de Tom Skinner, baterista do grupo The Smile (com
Thom Yorke e Jonny Greenwood, do Radiohead).
Doce, com violão e um sentimento que se poderia dizer
sessentista (apesar das eletrônicas), “The waiting game” leva o disco pelo
caminho de uma sofisticação que se concretiza, de fato, em “Coming up roses”,
balada com cordas camerísticas — a apoteose da beleza desse disco, que mantém o
seu caráter predominante em reflexivas faixas para a pista, como “Season 2 weight
loss” (de beats expansivos, mas, no geral, controlada) e “Taste back”.
A certa altura, “Kiss all the time. Disco, ocasionally”
faz um desvio mais brusco para a diversidade. “Pop”, meio perversa e com
agressiva linha de teclados que poderia estar numa faixa do Depeche Mode, traz
os questionamentos mais filosóficos de Harry Styles (“será que estou me metendo
em algo maior do que eu consigo lidar? / isso pode dar em qualquer coisa / eu
faço, faço de novo/ é para ser pop”). E em “Dance no more”, ele investe no
departamento funky com graça suficiente para não fazer feio diante da herança
de Prince e Justin Timberlake (“é como se a música tivesse sido enviada dos
céus / e não houvesse diferença entre lágrimas e suor”).
Um responsável compromisso com o pop clássico se faz
notar novamente em “Kiss all the time. Disco, ocasionally” na faixa “Paint by
numbers”, uma muito bem executada balada de violão, com letra cheia de ironias
(“foi uma tragédia quando você disse a ela que não nem tenho trinta e três
anos?”, pergunta-se o cantor).
E o disco termina com a esperançosa “Carla’s song”,
canção que se insere na sonoridade geral do álbum, mas traz de bônus aquela
eletrizante qualidade de hits do U2 e Coldplay e uma letra sagaz (“você tem
sido um bebê dormindo sobre uma barra de chocolate / até seus olhos se abrirem
para a luz cambiante do verão”).
Como as canções desse disco vão se conjugar no show da
nova turnê (que passa por São Paulo em julho) ao lado de hits como “As it was”
e “Watermelon sugar” é um mistério — não no sentido da aflição, mas no da
alegria com as possibilidades. Para o ouvinte, o que mais importa é que Harry
Styles apostou que seu público amadureceria junto com ele e fez um disco bem
coerente, com texturas, refrões, referências, timing e uma sonoridade vibrante
e clara para o diário (escrito, muitas vezes, em código) das descobertas e
jogos amorosos de um jovem adulto.
Cotação: Ótimo

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