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sexta-feira, 6 de março de 2026

CRÍTICA: HARRY STYLES ENCARA A MATURIDADE E ACERTA EM DISCO FIEL A SI MESMO

Cultura
 
Crítica: Harry Styles encara a maturidade e acerta em disco fiel a si mesmo
 
Quarto álbum solo do astro, ‘Kiss all the time. Disco, ocasionally’ encena com eletrônicas elegantes e pulsantes o diário de descobertas e jogos amorosos de um jovem adulto
 
Por Silvio Essinger — Rio de Janeiro
 
06/03/2026 11h22  Atualizado há 4 horas

 
Aos 32 anos, já bem distante dos tempos de One Direction, o cantor inglês Harry Styles não é mais nenhum garotinho. Ao mesmo tempo, ele é um desses pop stars que se contam nos dedos de uma mão capazes de arrastar multidões — de crianças, adolescentes, adultos — para os estádios. Diante do desafio de um quarto álbum solo, Styles parece ter escolhido a mais arriscada opção: ser fiel a si mesmo.
 
“Kiss all the time. Disco, ocasionally”, que chegou esta sexta-feira ao streaming, cercado de expectativas, é a perfeita expressão de quem tardia, mas serenamente, foi levado a reconhecer e enfrentar as encruzilhadas que a idade pôs no caminho. E que, como o próprio sobrenome faz supor, encarou a tarefa com um bocado de estilo.
 
O álbum abre exatamente com “Aperture”, o single-aperitivo que ele lançou em janeiro. Um bem-vindo casamento de vulnerabilidades, música pulsante das pistas de underground e elegantes referências do rock e da música eletrônica, a faixa entrega o tom geral do disco (embora haja mais coisas nele) e prepara o ouvinte para esse novo Harry Styles, que desfila pelas outras 11 canções do disco.
 
“American girls” (mais lenta e introspectiva, embora igualmente tocada pelo espírito do pop alternativo) e “Ready, steady, go” (eletropop oitentista com violão, na medida para o crooner dar o seu recado sensual) vão aquecendo lentamente o disco, que entra definitivamente na pista de dança em “Are you listening yet”, com seu groove sólido, letra com pegada de rap (“se você insiste em participar de um movimento / certifique-se de que haja dança”) e batuques ferozes de Tom Skinner, baterista do grupo The Smile (com Thom Yorke e Jonny Greenwood, do Radiohead).
 
Doce, com violão e um sentimento que se poderia dizer sessentista (apesar das eletrônicas), “The waiting game” leva o disco pelo caminho de uma sofisticação que se concretiza, de fato, em “Coming up roses”, balada com cordas camerísticas — a apoteose da beleza desse disco, que mantém o seu caráter predominante em reflexivas faixas para a pista, como “Season 2 weight loss” (de beats expansivos, mas, no geral, controlada) e “Taste back”.
 
A certa altura, “Kiss all the time. Disco, ocasionally” faz um desvio mais brusco para a diversidade. “Pop”, meio perversa e com agressiva linha de teclados que poderia estar numa faixa do Depeche Mode, traz os questionamentos mais filosóficos de Harry Styles (“será que estou me metendo em algo maior do que eu consigo lidar? / isso pode dar em qualquer coisa / eu faço, faço de novo/ é para ser pop”). E em “Dance no more”, ele investe no departamento funky com graça suficiente para não fazer feio diante da herança de Prince e Justin Timberlake (“é como se a música tivesse sido enviada dos céus / e não houvesse diferença entre lágrimas e suor”).
 
Um responsável compromisso com o pop clássico se faz notar novamente em “Kiss all the time. Disco, ocasionally” na faixa “Paint by numbers”, uma muito bem executada balada de violão, com letra cheia de ironias (“foi uma tragédia quando você disse a ela que não nem tenho trinta e três anos?”, pergunta-se o cantor).
 
E o disco termina com a esperançosa “Carla’s song”, canção que se insere na sonoridade geral do álbum, mas traz de bônus aquela eletrizante qualidade de hits do U2 e Coldplay e uma letra sagaz (“você tem sido um bebê dormindo sobre uma barra de chocolate / até seus olhos se abrirem para a luz cambiante do verão”).
 
Como as canções desse disco vão se conjugar no show da nova turnê (que passa por São Paulo em julho) ao lado de hits como “As it was” e “Watermelon sugar” é um mistério — não no sentido da aflição, mas no da alegria com as possibilidades. Para o ouvinte, o que mais importa é que Harry Styles apostou que seu público amadureceria junto com ele e fez um disco bem coerente, com texturas, refrões, referências, timing e uma sonoridade vibrante e clara para o diário (escrito, muitas vezes, em código) das descobertas e jogos amorosos de um jovem adulto.
 
Cotação: Ótimo
 

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