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terça-feira, 15 de abril de 2025

ESTUDANTES, OPERÁRIOS, JOVENS E MORADORES DAS CAPITAIS: O PERFIL DAS VÍTIMAS DA DITADURA MILITAR NO BRASIL

Estudantes, operários, jovens e moradores das capitais: o perfil das vítimas da ditadura militar no Brasil

Ministério dos Direitos Humanos analisou dados da Comissão Nacional da Verdade. Situação se agravou após o Ato Institucional 5, que intensificou a repressão.

Por Sara Curcino, Nathalia Sarmento, TV Globo e g1 — Brasília

31/03/2025 20h09  Atualizado há uma semana
 
As vítimas da ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985 tinham em média 33 anos, viviam em sua maioria nas capitais e eram participantes de alguma organização política. Um terço era de estudantes.
 
Os dados são de um perfil dos mortos e desaparecidos políticos do regime militar divulgado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) nesta segunda-feira (31), data que marca os 61 anos do golpe militar de 1964.


Montagem com rostos de vítimas da ditadura identificadas pela Comissão Nacional da Verdade. — Foto: Reprodução/MDHC
 
O observatório da pasta analisou dados do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que funcionou entre 2012 a 2014. A pesquisa considera o período de 1946 a 1988 – isso porque, antes de 1964, 12 assassinatos políticos ocorreram devido à truculência do Estado.

Oficialmente, o governo brasileiro reconhece que 434 pessoas foram mortas ou dadas no período, incluindo o regime militar. Esse número leva em conta somente quem se opôs e militou politicamente contra os governos autoritários do período.
 
SEIS CRIANÇAS
Segundo a análise, a média de idade das vítimas era de 32,8 anos. A maioria (77,4%) tinha entre 18 e 44 anos, sendo que quase metade estava na faixa etária de 18 a 29 anos. Cinco das vítimas estavam na faixa etária de 12 a 17 anos e uma criança de menos de um ano de idade foi morta.
 
O documento também aponta que:
  • das 434 vítimas, 51 eram mulheres, representando 11,8% do total;
  • ao menos 27 dos mortos eram militares ou ex-militares;
  • os assassinatos ocorreram principalmente nas capitais, concentrando 62,7% das mortes. Em todo o país, os crimes foram registrados em 15 estados e no Distrito Federal. As cidades de São Paulo e Rio de Janeiro foram os principais centros de repressão, somando 47,2% das mortes, enquanto os estados de São Paulo e Rio de Janeiro juntos concentraram 49,5% dos casos;
  • 82,5% das vítimas eram ligadas a alguma organização política e 37% associada a algum partido político.
  • 32,3% dos assassinados eram estudantes e 13,1% operários de diversos setores;
“Os jovens, principalmente os universitários, eram os responsáveis por organizar passeatas, entregar panfletos e se reunirem para discutir a democracia. Por isso, eram enxergados pelo Estado como ameaças, caso os movimentos não fossem reprimidos”, disse Eneá Almeida, presidente da Comissão de Anistia.
 
Segundo o MDHC, 351 casos de mortes e desaparecimentos, ou 80,8% do total, ocorreram após a instituição do Ato Inconstitucional 5. Na ocasião, o governo restringiu as atividades no Congresso Nacional e restringiu a liberdade de expressão, imprensa e associação.
 
O AI-5 foi um dos principais instrumentos de repressão utilizados pela ditadura militar brasileira e teve um impacto profundo na história do país.
 
“Até dezembro de 68, muita gente acreditava que a ordem seria estabelecida e que o governo autoritário sairia do poder. Com a instituição do AI-5, a população tomou conhecimento que as repressões iriam aumentar, por isso as pessoas passaram a engajar mais nos movimentos sociais”, afirmou Eneá.

NÚMERO DE VÍTIMAS É MUITO MAIOR
A presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, colegiado que segue funcionando há quase 30 anos – com uma breve interrupção ao fim do governo Bolsonaro –, Eugênia Gonzaga, já explicou que o número total de vítimas da ditadura é muito maior: mais de 10 mil pessoas. Nem todas receberam a classificação de mortos políticos.
 
De acordo com ela, que também é procuradora regional da República, apesar do número oficial, outros relatórios da CNV mostram que mais de 8 mil indígenas e 2 mil trabalhadores do campo também foram mortos em embates ligados ao regime militar.

A presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Gonzaga. — Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
 
A Lei da Anistia, de 1979, impediu a punição de "qualquer pessoa", inclusive dos militares responsáveis pelas mortes.
 
Em fevereiro deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, no entanto, que vai analisar uma ação que discute a aplicação da lei a crimes que tiveram início na ditadura, mas cujos efeitos ainda se consumam no presente — os chamados "crimes permanentes".
 
O tribunal também vai analisar especificamente os casos do ex-deputado federal Rubens Paiva e de outras duas vítimas da ditadura. A história de Paiva foi retratada no filme "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional.

Família do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura, não se sabe o paradeiro do corpo dele até hoje — Foto: Reprodução/TV Globo
 
GUERRILHA DO ARAGUAIA
A análise do Ministério dos Direitos Humanos informa que houve um aumento das mortes registrado de 1969 a 1978 devido à Guerrilha do Araguaia, cujos membros eram integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

"Esse partido foi a organização que teve o maior número de militantes assassinados, totalizando 79 pessoas, o que representa 18,2% do total de mortes levantadas pela CNV. A Ação Libertadora Nacional (ALN), a segunda organização com mais mortes e desaparecimentos, teve 60 militantes mortos, o que equivale a 13,8% das vítimas, seguido pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), também um dos principais alvos da repressão, com 41 pessoas assassinadas (9,4% de todas as pessoas mortas e desaparecidas)", diz a pesquisa.
 
Link da Reportagem: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/03/31/estudantes-operarios-jovens-e-moradores-das-capitais-o-perfil-das-vitimas-da-ditadura-militar-no-brasil.ghtml

segunda-feira, 14 de abril de 2025

LISTA DE MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS NA DITADURA MILITAR BRASILEIRA

LISTA DE MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS
NA DITADURA MILITAR BRASILEIRA


Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume III

Esta lista reúne os mortos e desaparecidos políticos no regime militar de 1964. Os assassinatos e desaparecimentos de opositores ao regime militar no Brasil foram investigados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), por comissões estaduais da verdade, por entidades de direitos humanos e pelos próprios familiares das vítimas. Nessas diversas investigações, há discrepância nos números de mortos e desaparecidos computados. A CNV, em seu relatório final, reconheceu 434 mortes e desaparecimentos políticos entre 1946 e 1988, dos quais a maioria ocorreu no período do regime.

Estão incorporados na lista casos apurados pelo(a):
  • Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instituída em 1995 e vinculada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que contabilizou 362 casos de mortes e desaparecimentos políticos;
  • Centro de Documentação Eremias Delizoicov e a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos, que, em 2010, organizaram um site listando 383 mortos e desaparecidos políticos;
  • Memórias da Ditadura, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog, a partir de documentos e dados recolhidos pela CNV;
  • Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, associada à CNV e localizada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, com foco nos crimes de Estado perpetrados nesse estado;
  • Comissão Nacional da Verdade, volume 3, "Mortos e desaparecidos políticos", publicado em dezembro de 2014.
 
COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE
RELATÓRIO
Volume III
MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS
 
'Mortos e desaparecidos na ditadura': mapa mostra novas certidões de óbitos emitidas ou corrigidas pelo país
 
Estudantes, operários, jovens e moradores das capitais: o perfil das vítimas da ditadura militar no Brasil

terça-feira, 8 de abril de 2025

ESPECIAL GOLPE CIVIL-MILITAR DE 64 | QUEM MATOU RUBENS PAIVA E COMO FOI COMETIDO O CRIME?

ESPECIAL GOLPE CIVIL-MILITAR DE 64
QUEM MATOU RUBENS PAIVA?

O MILITAR Valdemar Oliveira participou de ações de busca e espionagem na ditadura – de algumas, afirma não ter esquecido. Foi considerado desertor pelo Exército e testemunhou na Comissão da Verdade. Agora, no INtercept, conta detalhes inéditos sobre o que viu: ‘Fiquei calado por muito tempo’.
 
De acordo com Valdemar, Paiva foi arremessado ao mar com um peso amarrado ao corpo: “uma roda de caminhão”.

Dois de seus colegas de regimento – Jurandyr Ochsendorf e Souza e Jacy Ochsendorf e Souza – participaram da ação de ocultação do corpo em janeiro de 1971, sob ordens de Paulo Malhães, chefe da equipe. Jurandyr lhe contou que o corpo de Paiva foi levado no mesmo dia da morte por um barco da Marinha.
 
Meses depois, os irmãos Ochsendorf seriam agraciados com a Medalha do Pacificador, honraria igualmente concedida pelo Exército ao assassino do deputado, o tenente Antônio Fernando Hughes de Carvalho, ligado ao Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, CISA. “Rubens Paiva já chegou quebrado ao 1º BPE [sede do DOI-Codi/RJ], vindo do CISA. Fernando Hughes terminou o serviço”, afirma.
 
Texto feito e compartilhado no perfil do TikTok ARTEETERAPIA0.

O Intecept fez uma reportagem sobre o assassinato de Rubens Paiva. Abaixo segue um reportagem:

‘FIQUEI CALADO POR MUITO TEMPO’
 
Militar revela detalhes de como o Exército deu fim ao corpo de Rubens Paiva e outros crimes secretos da ditadura


  • O militar Valdemar Martins de Oliveira é um Veterano Paraquedista que prestou serviços de busca, apreensão e espionagem para o Exército durante a década de 1970. De acordo com ele, Rubens Paiva foi arremessado ao mar com um peso amarrado ao corpo: “uma roda de caminhão”.
  • Dois de seus colegas de regimento – Jurandyr Ochsendorf e Souza e Jacy Ochsendorf e Souza – participaram da ocultação do corpo em janeiro de 1971, sob ordens de Paulo Malhães, chefe da equipe. Jurandyr lhe contou que o corpo de Paiva foi levado no mesmo dia da morte por um barco da Marinha. Meses depois, os irmãos Ochsendorf seriam agraciados com a Medalha do Pacificador, honraria igualmente concedida pelo Exército ao assassino do deputado, o tenente Antônio Fernando Hughes de Carvalho, agente do Centro de Informações do Exército, CIE, ligado ao Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, CISA. “Rubens Paiva já chegou quebrado ao 1º BPE [sede do DOI-Codi/RJ], vindo do CISA. Fernando Hughes terminou o serviço”, afirma.

O militar e o ex-preso político: Valdemar Martins depõe na Comissão da Verdade ao lado de Ivan Seixas, em 2013.
 
CINCO DENUNCIADOS, NENHUM CONDENADO
  • Em 2014, Ministério Público Federal denunciou por formação de quadrilha armada, fraude processual, homicídio doloso e ocultação do cadáver de Rubens Paiva:
  1. Jurandyr Ochsendorf;
  2. Jacy Ochsendorf;
  3. Rubens Paim Sampaio, que integrou o Centro de Informações do Exército no Rio;
  4. José Antônio Nogueira Belham, ex-comandante do DOI-Codi/RJ; e
  5. Raymundo Ronaldo Campos.
  • Até hoje, ninguém foi condenado.
  • Outros acusados, como Hughes, Malhães e o capitão Freddie Perdigão Pereira, que também teriam participado do crime, já haviam morrido na época da denúncia.
 
REFUTANDO VERSÕES OFICIAIS DE CRIMES
Valdemar também contou detalhes de outro crime ocorrido na ditadura. Na chamada Casa da Morte, antro secreto de tortura e extermínio em Petrópolis, no RJ, ele conta que viu a morte do cabo e agente duplo Victor Luiz Papandreu, o “Grego”. Militante do Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, VAR-Palmares, Papandreu havia sido preso, aceitara ser informante dos órgãos de segurança e foi morto quando os agentes consideraram que ele não tinha mais serventia.
 
Após ser diagnosticado com transtornos psicológicos pelo médico Amílcar Lobo, Grego foi fuzilado à queima-roupa por Rubens Paim Sampaio, também denunciado no assassinato de Rubens Paiva, em maio de 1971. Após sua morte, o corpo de Grego foi levado para uma usina e incinerado. De acordo com o médico, Paim havia assassinado mais de dez pessoas na casa de Petrópolis.
 
“Grego era inteligente, não estava louco. Mas ele era um incômodo, como eu”, conta Valdemar, que garante que Paim tinha uma extensa lista de assassinatos.
 
Os membros da Casa da Morte: Paim (esquerda, em pé), Perdigão (ao lado, agachado), Malhães (ao centro, de barba), Camarão (atrás, calvo e de barba)
 
Um mês antes, o paraquedista havia participado do cerco ao casal de militantes do MR-8 [o grupo Movimento Revolucionário 8 de Outubro] Mário de Souza Prata e Marilena Villas-Boas, que resultou em tiroteio e morte do major José Túlio Toja Martinez numa rua de Campo Grande, subúrbio do Rio. O presidente Médici usou o episódio para adotar a execução como política de estado.
 
A versão oficial descreve que Marilena alvejou o major com um revólver ao ser abordada. Valdemar sustenta que o tiro inicial foi disparado por um potente fuzil FAL, do Exército, ou seja, o oficial pode ter sido morto por “fogo amigo”. “Seria necessário fazer um exame pericial para saber que tipo de bala o atingiu”, sugere.
 
Ele afirma também que o motorista de táxi que transportava o casal foi pressionado, posteriormente, a declarar que o primeiro disparo foi dado por Marilena. Ela e Mário teriam sido feridos e levados para o Hospital Central do Exército.
 
Anos depois, soube-se pela militante Inês Etienne Romeu que Marilena foi levada para a Casa da Morte, local onde Valdemar esteve por três vezes. “O que vocês chamam de Casa da Morte, era a casa de Mario Lodders, filho de um alemão nazista”, ele explica. Inês também contou ter reconhecido Hughes como um dos torturadores do local. Criado a mando do ministro do Exército Orlando Geisel, o centro de tortura teria sido desativado no fim de 1973.
 
INGRESSO NO EXÉRCITO E NOS PORÕES DA DITADURA
A trajetória de Valdemar no Exército começou em 15 de janeiro de 1968, com 17 anos, quando ingressou como soldado concursado no Núcleo de Divisão Aeroterrestre, onde hoje está o 27º Batalhão de Infantaria Paraquedista, no Rio de Janeiro.
 
Primeiro paraquedista de sua turma, foi cooptado já em agosto daquele ano pelo CIE, órgão do aparato de segurança criado em 1967, subordinado ao Ministério do Exército e ao Serviço Nacional de Informação, o SNI.
 
Segundo ele, os paraquedistas, uma tropa de elite, eram fanatizados e treinados para a guerra. Após sua convocação, o sargento Guilherme do Rosário o apresentou ao então capitão Rubens Paim Sampaio. Valdemar conta que Sampaio comparou sua aparência à de jovens militantes de esquerda. Ele ainda observa que não se deu conta que estava se embrenhando no submundo da vida militar. “Não sabia o que era o CIE. Simplesmente fazia o que meus superiores ordenavam”, relata.

Rubens Paim Sampaio, um dos mais ativos agentes da repressão, conhecido como “Dr. Teixeira”.
 
O recruta teve treinamento especial no 1º Batalhão de Polícia do Exército, sede do futuro Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-Codi, no Rio de Janeiro.
 
Entre os instrutores, diz Valdemar, estavam dois oficiais estadunidenses egressos do Vietnã, que ministraram aulas sobre explosivos, fotografia, métodos de espionagem, sabotagem, interrogatório e tortura, além de temas sobre anticomunismo e ideologias de esquerda.
 
Dois de seus superiores estavam entre os mais ativos agentes da repressão institucionalizada: o próprio Paim Sampaio, que usava o codinome “Dr. Teixeira”, membro do CIE e oficial dos gabinetes dos generais Orlando Geisel (irmão do presidente da República) e Sylvio Frota; e o capitão Freddie Perdigão Pereira, o “Dr. Roberto”, integrante do CIE, DOI-Codi/SP, SNI e Grupo Secreto – milícia responsável por atentados a bombas a sedes de jornais, bancas de revistas, OAB/RJ e Riocentro.
 
Paim Sampaio e Perdigão eram chefes da Casa da Morte, cuja zeladoria era feita por um colega do grupo de paraquedismo de Valdemar: Antônio “Camarão” Waneir Lima, torturador e abusador de Inês Etienne Romeu, a única sobrevivente do local. “No quartel, ele gostava de dizer que tinha sodomizado Inês”, recorda Valdemar.
 
Elo entre a casa e o DOI-Codi de São Paulo, Perdigão foi um dos envolvidos no atentado à estilista Zuzu Angel, morta num acidente automobilístico em 1976. Ele e Paim Sampaio também estiveram entre os 14 apontados pelo Ministério Público Federal, em 2014, como autores do sequestro, assassinato e ocultação do corpo do deputado Rubens Paiva.
 
Um terceiro chefe de Valdemar, o capitão Paulo Malhães, era um dos idealizadores da Casa de Morte, igualmente implicado no caso Rubens Paiva. Em entrevistas, Malhães admitiu que utilizava animais para torturar presos (a famosa jiboia do DOI-Codi pertencia a ele) e que retirava arcadas dentárias e dedos dos corpos de guerrilheiros antes de jogar os cadáveres em rios.
 
No CIE, o soldado relata ter testemunhado até mesmo a quebra de hierarquia militar: oficiais de maiores patentes obedeciam a oficiais de menores patentes, coronéis obedeciam a capitães. Ele assegura que o órgão estava diretamente conectado à Presidência e que suas determinações prevaleciam sobre as de outros destacamentos: “o presidente sabia tudo o que ocorria ali”, afirma.
 
MISSÕES DE ESPIONAGEM E REPRESSÃO
Após deixar o cabelo crescer e adotar trajes civis, uma de suas primeiras missões foi fotografar jovens do movimento estudantil, entre eles, João Antônio Abi-Eçab e Catarina Helena Abi-Eçab, estudantes da USP e militantes da Ação Libertadora Nacional, a ALN, suspeitos da execução do capitão estadunidense Charles Chandler em outubro de 1968.
 
Em seguida, Valdemar Martins participou da ação de captura que resultou em tortura e morte do casal num sítio de um coronel em São João de Meriti, no Rio de Janeiro, em novembro de 1968. “O governo procurava os assassinos do capitão, queria os culpados, mas eu disse que o casal nada sabia”, conta.
 
Após discordar da violência exercida pelos agentes, Valdemar relata ter sido agredido por “Miro”, policial do DOPS, e depois afirma que passou a ser perseguido e ameaçado por seus pares.
 
Dias depois, segundo Valdemar, Paim Sampaio produziu um falso termo de deserção que acredita ter como objetivo lhe imputar a execução do casal, que teria sido feita por Perdigão.

O termo de deserção.
 
“O termo foi escrito à mão numa folha de caderno. Eles queriam que eu segurasse essa bucha”, relata. A versão oficial sobre o caso Abi-Eçab citava que o casal morrera num acidente automobilístico, cujo veículo carregava explosivos. Os militares receavam que o recruta denunciasse os crimes – algo que ocorreria muito depois, mas sem surtir efeito perante a Justiça Militar.
 
Hospedado no Hotel Marialva, no bairro da Lapa, Rio de Janeiro, Valdemar partia para operações diversas na região. Em 1970, contudo, ele se reuniu com os militares na casa de sua irmã, em São Paulo, para tratar de sua permanência no quartel do Rio de Janeiro, proposta rechaçada pelos agentes de segurança. Valdemar afirma que, como se recusou a dar continuidade às atividades de vigilância, acabou agredido, juntamente com sua mãe e irmã – ele teve um corte profundo na cabeça e seu braço quebrado, enquanto sua irmã sofreu um aborto.
 
Coagido, permaneceu ligado ao CIE. “Quem entrasse, não sairia mais, então eu me fazia de besta”, afirma.
 
VIDA NA CLANDESTINIDADE E RETORNO À CASERNA
Valdemar Martins executou também tarefas mais amenas e burocráticas. Mesmo sem experiência, atuou como “funcionário” e olheiro nas empresas DIMIG e SPI, onde emitia certificados de títulos mobiliários e fundos de investimento, e na fábrica de cigarros Sabratti.
 
Diariamente, conta ele, tinha que se apresentar no prédio do DOI-Codi em São Paulo. Por discordar dos métodos de repressão, Valdemar revela que, frequentemente, neste e em outros casos, seus relatórios omitiam informações.  
 
Em 1972, ele foi enviado para as regiões de Marília e de Ribeirão Preto, ambas no interior de São Paulo, para se infiltrar em grupos de teatros, bares de universitários e igrejas. Quatro anos depois, Valdemar foi avisado que estava sendo procurado por Mariel Mariscot, ex-paraquedista e notório integrante do temido Esquadrão da Morte, e teve sua casa invadida. Ao perceber que a porta seria arrombada, conta que escapou pelos fundos e pulou o muro. Mariscot seria preso em seguida.
 
Em meio a turbulências, partiu para o Chile, onde trabalhou numa mineradora e prestou serviços para o CIE quando requisitado. “Havia o receio de ameaças à minha família”, pontua.
 
No início da reabertura política, em 1979, procurou seu antigo chefe em São Paulo e Marília, Waldir Silveira Mello, que havia se tornado juiz auditor da Justiça Militar. Porém, foi aconselhado a “sumir, pois sabia demais”. O conselho, além de outro ataque, no qual seu carro foi alvejado por tiros, o compeliram a seguir na semi clandestinidade durante as décadas seguintes, quando trabalhou em garimpos e fazendas, como boia-fria – e procurou, sem sucesso, auxílio de oficiais para resolver sua situação militar.
 
A sua sorte mudou em 1997. Após relatar sua condição a diversos oficiais, foi chamado para se reapresentar ao seu antigo batalhão. Munido de habeas corpus preventivo foi, 30 anos após seu ingresso nas Forças Armadas, reincorporado em 12 de março de 1998, com 47 anos de idade.
 
A estadia no quartel foi curta. Ele foi licenciado do serviço em 26 de julho de 1999 por ultrapassar a idade permitida para a função de soldado, sem direitos assegurados aos agentes militares – situação que persiste até hoje. Negou-se a assinar o certificado de reservista por discordar de sua permanência no cargo de soldado.
 
Antes de sua saída, o capitão José Vanildo Cerqueira havia se prontificado a regularizar sua situação militar por meio de Inquérito Policial Militar, IPM, reunindo provas e documentos. Mas, em questão de um mês, o oficial foi transferido do batalhão e faleceu durante exercício na Amazônia. Fotos e documentos desapareceram, e várias versões foram dadas para a morte do capitão. Seu substituto foi Reginaldo Vieira de Abreu, que seria indiciado na trama golpista de 8 de janeiro de 2023.
 
Um dos oficiais que havia articulado sua reincorporação, o general Osvaldo Pereira Gomes, propôs a ele que passasse para a reserva como sargento, contanto que esquecesse o IPM e não comentasse mais o caso. “Os irmãos Ochsendorf já estavam como capitães a essa altura. Como não acreditava em mais nada do que falavam e insistia em uma investigação, não concordei. Fui licenciado sem mais nem menos”, diz.
 
TESTEMUNHOS SOBRE CRIMES E GOLPES
Nos anos 2000, o ex-agente começou a tornar públicas suas histórias. Em 2001, Valdemar ajudou o repórter Caco Barcellos a trazer à tona a verdadeira história por trás das mortes de João Antônio e Catarina Helena Abi-Eçab, provando que o acidente fora forjado por militares. Conforme sua descrição, os peritos constataram que Catarina fora executada com um tiro no crânio. “Havia vestígios de chumbo em sua nuca, no local onde eu havia indicado”, revela.
 
O irmão de Catarina, Lula Ferreira, ex-técnico da seleção brasileira de basquete, consentiu que fosse feita a necropsia nos restos mortais. Ele considera que o ex-militar também foi uma vítima da ditadura civil-militar. “Assim como Catarina e João, ele era muito jovem na época”, disse Ferreira.
 
Enquanto Valdemar fornecia declarações à TV Globo, no Rio de Janeiro, sua família recebeu a visita de Paim Sampaio, seu antigo chefe no CIE, no interior de São Paulo. Seu filho, então com 12 anos, foi intimidado pelo militar. “Por telefone, Paim me disse para tomar cuidado com o que eu falava”, revela. Ele denunciaria Freddie Perdigão como o autor do homicídio do casal somente na Comissão Nacional da Verdade.


Entre 2013 e 2014, Valdemar prestou depoimentos à comissão sobre o assassinato dos Abi-Eçab e sobre o atentado à OAB/RJ em 1980, ao fazer reconhecimento do fabricante de bombas Hilário Corrales e do sargento Magno Cantarino Mota – este, presente também no Riocentro, em 1981. Ele acredita que seu ex-colega, o sargento Guilherme do Rosário, que carregava uma das bombas que explodiu no atentado ao Riocentro, teve sua morte planejada. Freddie Perdigão, então um tenente-coronel, comandou as duas operações.
 
Um inesperado reencontro com o passado ocorreu numa sessão da comissão, quando se deparou com o ex-comandante Paulo Malhães. “Ele me disse ‘aprenda como se faz’, após mentir nos depoimentos para proteger seus amigos”, afirma Valdemar. Semanas depois, Malhães foi encontrado morto, com sinais de asfixia, em seu sítio. “Ele morreu ‘no saco’, como se diz na gíria militar, com um saco plástico envolto na cabeça.”
 
TENTATIVAS DE REPARAÇÃO
Apesar de ter sido falsamente taxado de desertor durante a ditadura militar, o que lhe acarretou problemas constantes, Valdemar continuou a realizar trabalhos para o Exército e foi mantido contra sua vontade no posto de soldado até os 49 anos – mesmo com curso de cabo –, ultrapassando a idade limite para a função. 
 
Agora, aos 73 anos, ele ainda não conseguiu passar para a reserva. “Se eu fosse mesmo um desertor, seria excluído do serviço ativo. O Supremo Tribunal Militar reconheceu que não houve deserção de praça, pois em 1998 não encontrou a Instrução Provisória de Deserção, o IPD”, argumenta.
 
No entanto, seus pedidos de anulação do ato de deserção, anistia política, reintegração à reserva do Exército Brasileiro e reparação econômica não foram acolhidos pela Justiça Militar. “Meus processos sempre caíam na mão de Edmundo Franca Oliveira, o juiz do caso do Riocentro”, conta. Nem mesmo a Comissão de Anistia os acolheu – em 2021, ele obteve um parecer favorável e outro divergente pela comissão.
 
Os seus ex-colegas de regimento, Antônio “Camarão” Waneir e Jacy Ochsendorf, chegaram aos postos de, respectivamente, sargento e major. Eles, ao lado do general reformado José Antônio Belham, ex-comandante do DOI-Codi/RJ, seguem livres e recebendo salários.
 
Valdemar tem esperança de que seu depoimento seja considerado e, com isso, mudar o curso de sua história na segunda quinzena de março, quando será realizada uma oitiva, com presença de procuradores e da Polícia Federal, na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos – um marco importante no reconhecimento de violações cometidas durante a ditadura, restabelecido no ano passado após sua extinção por Jair Bolsonaro, um ex-paraquedista.
 
Link da Matéria: https://www.intercept.com.br/2025/03/02/militar-revela-detalhes-de-como-o-exercito-deu-fim-ao-corpo-de-rubens-paiva-e-outros-crimes-secretos-da-ditadura/

ESPECIAL GOLPE CIVIL-MILITAR DE 64 | QUEM FOI CORONEL BRILHANTE USTRA? FOTOS, DEPOIMENTOS E PUNIÇÕES

  • Carlos Alberto Brilhante Ustra
  • Nascimento: Santa Maria, 28 de julho de 1932
  • Morte: Brasília, 15 de outubro de 2015

Ustra foi coronel da ativa do Exército Brasileiro e ex-chefe dos centros de tortura e assassinato de pessoas que se opunham à Ditadura Militar, o DOI-CODI do II Exército (de 1970 a 1974), um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985). Também era conhecido pelo codinome Dr. Tibiriçá. Teve o valor da pensão de suas filhas equiparado ao de marechal, em 2021, após a sua morte, na chamada "farra dos marechais", patente concedida durante o governo Bolsonaro e que no Brasil só é dada a heróis de guerra, sem que nunca tenha participado de algum combate. O caso aconteceu, pois antes da assinatura da MP n° 2215-10/2001, militares que iam para a reserva ganhavam o salário equivalente a uma patente acima da sua. O título, portanto, era equivalente ao seu salário. Em 2008, Ustra tornou-se o primeiro militar condenado pela Justiça Brasileira pela prática de tortura durante a Ditadura. Embora reformado, continuou politicamente ativo nos clubes militares, na defesa da ditadura militar e nas críticas anticomunistas. Ele escreveu dois livros de memórias: Rompendo o Silêncio (1987) e A Verdade Sufocada (2006).
[Wikipédia]
  • Ele foi um dos nomes mais temidos da Ditadura Militar no Brasil. Acusado de liderar ações brutais contra opositores, se tornou o primeiro torturador reconhecido pela Justiça Brasileira. Símbolo do medo e da repressão.
  • Carlos Alberto Brilhante Ustra comandou o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações), que entre 1970 e 1974, foi um dos principais centros de repressão do regime. Durante sua gestão, centenas de presos políticos relataram ter enfrentado condições desumanas. Sobreviventes dizem que ele não apenas autorizava, mas também acompanhava métodos extremos de interrogatório que poderiam durar horas, dias, meses ou até a morte. Em 2008, a Justiça reconheceu Coronel Ustra como torturador em uma ação movida pela família Teles, que foi presa e torturada no DOI-CODI de São Paulo. A sentença foi dada pelo juiz Gustavo Santini Teodoro, sendo a primeira decisão oficial a responsabilizar um militar da ditadura por violações de direitos humanos. No entanto, Ustra nunca foi condenado criminalmente devido à Lei da Anistia (1979).
  • Obs.: ANISTIA é o perdão oficial concedido pelo Governo, que impede a punição de pessoas por determinados crimes no Brasil. A Lei da Anistia (1979) perdoou tanto opositores do Regime quanto agentes da Ditadura, impedindo a responsabilização legal de torturadores e militares pelos crimes cometidos no período.



SEM PUNIÇÕES