Virada
de Lula: erros de Flávio e eleitores que não seguiram seus líderes
História
de PAIPEE BR • 7 h • 4 minutos de leitura
Na
noite de 4 de outubro, a conta parecia fechada. Flávio Bolsonaro encerrou o
primeiro turno com 47,04% dos votos válidos, ou 56,1 milhões de eleitores,
enquanto Lula alcançou 45,15%, com 53,8 milhões. Depois, vieram os apoios
oficiais de Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Considerando a vantagem
inicial, o histórico de segundos turnos e as adesões, análises chegaram a
apontar mais de 80% de chance de vitória para o senador. Vinte e um dias
depois, Lula foi reeleito com cerca de 51,7%. Nunca antes um candidato à
Presidência havia revertido a disputa após terminar o primeiro turno em segundo
lugar.
A explicação começa por um dado indicado pelas pesquisas,
mas subestimado pela interpretação predominante: os eleitores não acompanharam
seus líderes. O exemplo mais claro é o de Augusto Cury. Terceiro colocado, com
2,89%, o escritor declarou apoio a Flávio em 8 de outubro e condicionou a
adesão à assinatura de um termo de compromisso com educação, valorização dos
professores, proteção às mulheres e pacificação nacional. Seus eleitores,
porém, seguiram outro caminho. De acordo com a Quaest, entre os que votaram em
Cury, Lula passou de 34% para 48%, enquanto Flávio foi de 30% para 33%.
A contradição parece menor quando se considera a obra do
autor. O Vendedor de Sonhos, seu maior sucesso, apresenta como herói um morador
de rua que critica o consumismo e a idolatria do dinheiro. Pais Brilhantes,
Professores Fascinantes e Ansiedade abordam educação e saúde mental como temas
coletivos. Cury se define como alguém de “mente de direita e coração social”.
Seus leitores parecem ter votado com o coração. Além disso, o segundo turno
teve episódios contrários à pauta de empatia e pacificação defendida por ele.
Renan
Santos teve um efeito distinto, mas na mesma direção. O líder do Missão, quarto
colocado com 2,24%, não apoiou nenhum dos dois candidatos. Disse ter “asco” de
Flávio, chamou de “humilhado” quem votasse no 22 e afirmou que justificaria o
voto. Seu eleitorado, mais ideológico do que fisiológico, não migrou em massa
para Lula: 51% escolheram Flávio. Mas um quarto votou no petista, cuja parcela
nesse grupo subiu de 14% para 25%. Para um campo de direita antipetista, essa
perda de votos é rara.
Enquanto
a transferência de votos avançava com dificuldade, Flávio acumulava tropeços.
Na véspera do primeiro turno, afirmou que não haveria segundo e que já agendava
reuniões para formar o governo. Os adversários exploraram o clima de “já
ganhou”. No debate da Band, em 18 de outubro, Lula o questionou por ter atuado
na defesa do policial militar acusado de matar Ana Clara, de cinco anos, em
Niterói. Flávio respondeu que não se pode criminalizar a advocacia. As buscas
pelo caso dispararam.
No
debate da Globo, no dia 23, ocorreram os momentos mais negativos. Flávio
afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com os nove dedos”, aludindo ao
acidente de trabalho em que o presidente perdeu o dedo, e depois se desculpou.
Diante da mãe de Ana Clara, que estava na plateia, chamou-a pelo nome da filha
morta. Ao tratar de saneamento, descreveu Belém com esgoto a céu aberto, urubus
e “cheiro ruim”, provocando revolta de paraenses nas redes. No Nordeste, o
próprio campo bolsonarista também errou. Aliados de Flávio consideraram um
equívoco um vídeo de Nikolas Ferreira com nordestinos criticando Lula, por
entenderem que foi interpretado como depreciativo aos eleitores da região.
Do
lado petista, a resposta veio por meio da organização. Logo após o primeiro
turno, o deputado André Janones converteu o canal “Exército do Lula”, no
WhatsApp, em uma central de distribuição de conteúdo. O canal ultrapassou 6
milhões de seguidores. Em alcance bruto, Nikolas ficou à frente, com 50,7
milhões de interações, contra 23 milhões de Janones. A diferença estava na
estratégia: em vez de falar a uma plateia numerosa e já convencida, Janones
atribuiu tarefas aos militantes — compartilhar, comentar e levar o material a
grupos de família e de bairro, onde estão os indecisos e quem costuma não
comparecer.
O
resultado foi visto nas urnas. Mais de 3 milhões de eleitores que não haviam
votado em 4 de outubro compareceram no dia 25. Os votos brancos e nulos
recuaram de cerca de 6 milhões para 4,2 milhões. A margem favoreceu Lula em
93,8% dos municípios, e Minas Gerais, tradicional termômetro, virou.
Flávio
não reconheceu a derrota e anunciou que pedirá a anulação do pleito. Ele afirma
que a prorrogação da votação por duas horas, determinada pelo ministro
Cristiano Zanin, rompeu a isonomia entre os estados. A extensão, no entanto,
atendia a pedidos das duas campanhas, e especialistas avaliam que as chances de
anulação são remotas. Independentemente do resultado na Justiça, a eleição de
2026 deixa uma lição: apoio de cúpula não se transforma automaticamente em
votos e, em um segundo turno decidido por margens estreitas, perde quem comete
mais erros e mobiliza menos.
Tags:
Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, eleição de 2026
Link
da reportagem: https://www.msn.com/pt-br/noticias/other/virada-de-lula-erros-de-fl%C3%A1vio-e-eleitores-que-n%C3%A3o-seguiram-seus-l%C3%ADderes/ar-AA2g577d?ocid=msedgdhp&pc=U531&cvid=6adf46ea96ef41ea98566c1017a5d8c9&cvpid=6adf6d14eb534fca9ea1a687d0283ea9&ei=13

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